Por que falar e escrever com simplicidade é um bom negócio

by - January 11, 2019

Foto: Karla Nazareth

“Falar bonito” — ou “falar difícil”, como diriam os mais críticos — não é uma moda recente. Muita gente, de segmentos diversos, adora complicar na hora de explicar determinado assunto. 

Seja para mostrar que conhece palavras bacanas, para treinar os aprendizados do cursinho de inglês ou apenas para falar “a mesma língua” do segmento em que atua, comunicar-se de forma rebuscada ou com desnecessários vícios de linguagem ainda provoca ruídos em muitos setores. Mas já parou pra pensar que falar e escrever com simplicidade é mais vantajoso? Veja por quê.

Um estudo divulgado há alguns anos demonstrou que o tempo máximo de concentração total que uma pessoa consegue manter caiu de 12 para oito segundos. Então, se a gente se distrai tão facilmente, por que colocar mais obstáculos na hora de se comunicar?

O uso de termos em inglês é um dos problemas. Quem nunca se embananou porque esqueceu de “fazer o follow-up” a tempo de cumprir o “deadline” durante a “call” daquele “job” com o “prospect” que atire a primeira pedra. Ou agora a gente fala "throw the rock”?

Linguagem “inovadora” ou opressora?

Recentemente, um artigo no site The Outline foi além, criticando a imposição de termos como “inovação” e outras palavras da moda, principalmente quando totalmente desprovidas de sentido no contexto em que são aplicadas.

“Somos encorajados pelos poderosos ‘líderes pensadores’ e executivos a aceitá-la como a linguagem do senso comum ou a ‘realidade normal’. Quando entendemos e implantamos tal linguagem para descrever nossas vidas, somos vistos como bons trabalhadores; quando falhamos nessa tarefa, somos implicitamente ameaçados com a obsolescência econômica. Afinal de contas, se você não é familiarizado com ‘inovação’ ou ‘colaboração’, como pode esperar prosperar nesta admirável nova economia?”, ironizou a autora do artigo Rebecca Stoner, ao comentar o livro Keywords: The New Language of Capitalism, de John Patrick Leary.

Para Leary, o uso de termos como “disruptivo” — para ficar apenas em um exemplo muito em voga no meio empresarial — promove valores amigáveis às grandes corporações, sobrepondo-se àqueles que se conectam aos seres humanos: a hierarquia acima da democracia, a competitividade acima da solidariedade, a adoção inquestionável das novas tecnologias acima do escrutínio a respeito de seus impactos às pessoas e ao planeta. Peraí, escrutínio? Haja "resiliência"!

Para simplificar: seja em uma conversa com um colega (também vale para chefe ou funcionário), fornecedor, parceiro de negócios, amigo, ou ainda ao escrever um artigo para o LinkedIn, quanto mais facilmente a gente se fizer entender, melhor a nossa comunicação será — e menos opressores em relação ao próximo nós seremos.

Por uma redação mais humana

Há alguns dias, eu estava revisando um conteúdo a ser publicado em um blog educacional, cuja persona (antigamente, mais conhecida como “público-alvo”) era um rapaz de 25 anos de idade, que havia estudado apenas até a 4ª série do Ensino Fundamental. No texto, o redator usava termos como “âmbitos da vida”, “usufruir”, “expor”, “visualizar” e “capacitações”.

Um breve exercício de empatia teria ajudado a escrever um conteúdo mais simples e amigável, feito sob medida para quem ele estava tentando alcançar. “Fases da vida”, “usar”, “mostrar”, “imaginar” e “cursos” foram os termos que sugeri para substituir as palavras escolhidas inicialmente. Nem sempre elas têm o mesmo significado dos termos originais, mas no contexto geral, funcionavam melhor para aquela persona.

Ainda na área da educação, estudos já comprovaram que uma linguagem mais simples traz bons resultados. Uma experiência do professor de Física Geraldo Marcello Horta demonstrou na prática como os alunos se beneficiam de aulas em que o conteúdo é explicado por meio de exemplos práticos, deixando a linguagem mais técnica e rebuscada de lado.

No marketing de conteúdo, é preciso escrever com simplicidade

Quando se fala em marketing de conteúdo, uma linguagem simples é essencial. Por meio de artigos, vídeos e outras peças de comunicação, as empresas têm a oportunidade de demonstrar ao público de que forma determinadas necessidades podem ser atingidas.

Por exemplo: "como economizar um dinheirinho a cada mês", "de que forma organizar um evento" ou, ainda, "por que praticar exercícios traz benefícios para a saúde" são temas que podem ser explicados com termos mais técnicos — como "budget", "check-in" e "hipertrofia" — ou por meio de exemplos, palavras simples (mas não simplórias) e uma linguagem mais coloquial, como uma conversa entre amigos.

Dependendo do ponto do funil de vendas que está sendo trabalhado, o foco do marketing de conteúdo está muito mais voltado a educar do que vender. Daí, a ideia de se utilizar uma linguagem mais simples — como nas aulas do prof. Geraldo Horta, mencionadas acima — ganha ainda mais força.

Hora de simplificar

O meu convite a todos — especialmente aqueles em posições superiores hierarquicamente — é: vamos escrever de forma mais humana? Seja via e-mail, redes sociais ou “zap-zaps” da vida, quanto mais simples for nossa linguagem, mais fácil vai ser para a gente se entender — tanto no relacionamento com nossas equipes quanto com clientes. E entendimento é o que mais anda em falta no mundo ultimamente.

Para quem sofre quando algum superior vem cheio de termos complicados, seja para mostrar que tem conhecimento ou apenas porque não consegue mais falar como gente normal, saiba que é nessa hora que se deve respirar fundo e buscar entender — de forma simples — o que diabos ele está querendo dizer. Afinal, perguntar não ofende.

Gostou do texto? Concorda, discorda ou tem alguma história relacionada a escrever com simplicidade para compartilhar? Deixe um comentário para a gente continuar essa conversa.


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