• Leonardo Tissot
  • Home
  • Terms
  • Link.tree
  • Email
Jeff Tweedy em ação durante show do Wilco, em São Paulo (SP) - Foto: Liliane Callegari


This article is available in Portuguese only.

CHICAGO — Qualquer pessoa em sã consciência diria que Jeff Tweedy está muito mais para Bob Dylan e Neil Young do que para Kim Gordon e Johnny Ramone. Certo? Bem, concorde ou não com essa afirmação, em seu livro de memórias, Let’s Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc. (Dutton), um dos maiores compositores americanos da atualidade lembra mais o estilo da ex-baixista do Sonic Youth e do guitarrista dos Ramones em suas respectivas autobiografias – A Garota da Banda e Commando – do que o dos músicos aos quais é mais frequentemente associado.

Tanto Dylan (em Crônicas – Volume 1) quanto Young (em Neil Young – A Autobiografia), escreveram suas memórias em uma linha do tempo que viaja pelos anos e décadas conforme lhes convêm, pouco preocupados com datas e a exatidão dos fatos, e muito mais interessados no impacto e nas sensações que o texto provocaria nos leitores – como era de se esperar dos grandes compositores que são, aliás.

Como escritor de prosa, Jeffrey Scot Tweedy (nome de batismo), por sua vez, vai direto ao ponto. Na maior parte do tempo, o autor segue linearmente os acontecimentos e revela “causos” de seus 51 anos de vida, desde a infância em Belleville – uma cidadezinha de 40 mil habitantes no estado americano de Illinois –, aos anos de juventude nos quais cruzava os 30 minutos que separavam sua terra natal de St. Louis (Missouri), onde assistiu a shows de X e The Replacements, entre outras bandas fundamentais de sua formação, no palco do Mississippi Nights. A região também foi onde o músico deu seus passos iniciais na carreira, primeiro na banda The Primatives, e, depois, como baixista do Uncle Tupelo.

Ainda assim, o livro, embora tenha passagens convencionais, busca inovar na linguagem em diversos momentos – Tweedy compartilha antigas letras de músicas, situações são contadas em formato de história em quadrinhos, diálogos entre o cantor, a esposa e o filho Spencer são relatados na íntegra, entre outros truques editoriais que mantêm o leitor interessado e fazendo aquilo que lhe cabe: virar as pouco mais de 300 páginas da obra de forma voraz.

Mas não se engane – apesar da mão pesada dos editores em vários momentos, o autor narra suas memórias como apenas ele poderia fazer. Em “Let’s Go…”, o músico lembra muito mais o contador de histórias de canções clássicas do alt-country como “Passenger Side” e “Hate It Here” – de “A.M.” (1995) e “Sky Blue Sky” (2007) –, do que o hermético compositor de letras como “I Am Trying To Break Your Heart”, de “Yankee Hotel Foxtrot” (2002), ou “Laminated Cat”, do projeto paralelo “Loose Fur” (2003).

Livro vai de anedotas banais da juventude aos momentos mais obscuros da vida do compositor

Tweedy é ora engraçado, ora sarcástico. Por vezes sério, mas fundamentalmente sincero nas memórias registradas no livro. Passando pelo relacionamento próximo com a mãe, JoAnn, e pelo alcoolismo do pai, Bob, chegando às primeiras namoradas e experiências musicais, o livro é revelador até mesmo para o mais estudioso fã do Wilco.

Pela primeira vez, Tweedy entra em detalhes sobre o acidente de bicicleta sofrido aos 12 anos, que quase lhe custou uma perna, e o consequente verão “desperdiçado” preso dentro do próprio quarto. Foi durante este período de molho que o futuro líder do Wilco voltou a se debruçar sobre um violão que havia ganhado de presente aos seis anos, (re)começando uma relação que mudaria sua vida para sempre.

Outro acidente, ocorrido mais adiante – sofrido por seu irmão Greg nas ferrovias onde trabalhava ao lado do pai –, proporcionou o “trampolim” que Tweedy precisava para dar um salto como músico: após receber uma indenização de milhares de dólares, o irmão mais velho deu de presente o primeiro instrumento de qualidade do caçula – uma Fender Telecaster preta e branca novinha em folha, “igual à de Joe Strummer”.

O livro ainda traz curiosidades que todo fã – tanto de Wilco como de cultura pop em geral – aprecia: o bar Lounge Ax, de propriedade de Susan Miller (esposa de Tweedy desde 1995 e mãe dos dois herdeiros do músico, Spencer e Sammy), serviu como cenário para o filme “Alta Fidelidade”, de Stephen Frears, baseado no romance homônimo de Nick Hornby. A cena na qual o personagem Rob Gordon (John Cusack) assiste a uma apresentação de Marie De Salle (Lisa Bonet) foi filmada no bar, então localizado em Chicago, onde Tweedy passou a viver após o traumático fim do Uncle Tupelo, em 1994.

Foi na cidade dos ventos que Tweedy se recuperou do impacto emocional sofrido ao ser largado pelo ex-companheiro de banda, Jay Farrar – que, na época, apenas avisou o empresário da banda, Tony Margherita, que “detestava Jeff” e, por isso, deixaria o Tupelo. Anos mais tarde, Tweedy descobriu em uma entrevista de Farrar o motivo do ódio (dica: teve a ver com uma garota).

Os trechos mais barra-pesada ficam por conta do período em que Tweedy se viciou no analgésico hidrocodona (usado para tratar as constantes enxaquecas), em seus relatos sobre os ataques de pânico que o debilitavam desde a juventude e que foram tanto inspiração quanto obstáculo nas gravações de “A Ghost Is Born” (2005), as duas batalhas de Susan contra o câncer, e as perdas da mãe, em 2006, e do pai, em 2017.

Outra revelação é o verdadeiro momento “#MeToo” vivido por Tweedy aos 14 anos de idade, quando teve sua primeira (e traumática) experiência sexual, com uma mulher 11 anos mais velha. No cenário tipicamente machista em que vivia, seus amigos o consideraram um herói, enquanto ele hoje entende por que se sentiu tão perturbado com a relação – ainda que a mesma tenha ocorrido, segundo o próprio, de forma consensual.

O livro ainda reúne histórias e curiosidades das mais variadas – a obsessão do falecido ex-guitarrista da banda Jay Bennet com ketchup, o seu vício em pílulas (que levou Tweedy a demiti-lo do Wilco durante as gravações de “Yankee Hotel Foxtrot”); os arrependimentos como a demissão do baterista Ken Coomer, por meio de um recado enviado pelo empresário; os encontros inusitados com Joey e Dee Dee Ramone, Peter Buck e Michael Stipe (R.E.M.), Johnny Cash, Bob Dylan, Sean “Puffy” Combs e Dean Ween; as vivências como produtor da cantora Mavis Staples e a parceria com o maluco beleza Jim O’Rourke; e até uma “ameaça” a Dave Grohl: “Nas duas vezes em que perdemos o Grammy nesta categoria (rock), o prêmio foi para os Foo Fighters. O que me leva a apenas uma conclusão. Se o Wilco um dia quiser ter toda a atenção e adoração que merece, eu preciso matar e comer o coração de Dave Grohl”, brinca Tweedy.

Hora de dizer apenas “vamos lá!”

“Let’s Go…” é um retrato honesto de um artista que, longe de querer se colocar num pedestal, deixa claro que é um homem comum, repleto de qualidades e falhas, como qualquer um de nós. E, mais do que um tributo a si mesmo, o livro é um agradecimento a todos aqueles que o rodeiam e que tornaram sua carreira possível – inclusive os fãs.

No dia 30 de novembro, Tweedy lança seu primeiro álbum solo de composições inéditas, “Warm” – no livro, o músico revela que não teria sido capaz de compor letras tão pessoais quanto às do novo trabalho, se não tivesse passado pela experiência de dois anos escrevendo suas memórias (confira o clipe do single “Some Birds“)

O livro termina com um convite, ao mesmo tempo em que Tweedy faz referência ao título da obra (uma expressão usada por seu pai): “Acho que finalmente parei de me preocupar em voltar de algum lugar menos confortável – algum lugar onde eu tenho certeza de que ficarei extremamente infeliz. Acho que estou começando a ficar ‘OK’ em qualquer lugar onde esteja. Acho que estou pronto para dizer apenas ‘vamos lá’.”

A biografia está disponível para venda apenas via importação do livro físico ou download digital (em formatos de texto e audiobook, narrado pelo próprio Tweedy, que ainda criou uma playlist no Spotify para acompanhar a leitura). Não há previsão de lançamento de uma versão traduzida no Brasil.

Leia a resenha completa no site Scream & Yell.
Foto: Liliane Callegari
Share
Tweet
Pin
Share
No comments
Foto: Marcelo Soares/Divulgação


This article is available in Portuguese only.

SATOLEP, RS - Vitor Ramil está na estrada desde muito cedo. Aos 18 anos lançou seu primeiro disco e assim botou o pé no mundo. Habitou outras terras antes de tomar a decisão de voltar para casa, em 92. Aliás, diz ele, de onde nunca saiu. “Satolep é onde moro, esteja onde estiver, mas Pelotas é o lugar concreto mais próximo de lá”.

Casado, pai de dois filhos, Vitor pode ser considerado hoje como a maior expressão artística em nível nacional que reside em Pelotas. Seu último disco, Tambong, foi considerado pela crítica especializada seu melhor registro musical, o amadurecimento como compositor, disseram alguns. Mas, para aqueles que já conheciam seu trabalho, nenhuma surpresa. Fato é: Vitor sempre caminhou com passos fortes, sabedor de suas raízes com olhar para imensidão.

A grande maioria dos artistas possui uma sensibilidade além da média, diríamos até uma sensibilidade feminina. Chico Buarque, por exemplo, compunha na primeira pessoa feminina. Quanto você expressa este seu lado nas composições?

Vitor Ramil - Não consigo pensar em um lado feminino, nem acho que uma sensibilidade além da média seja mais de mulheres que de homens. Quem cria faz uma leitura particular do mundo e a expressa atendendo a uma necessidade que desconhece. O compositor popular é um observador, fazedor de conexões, coletor de coisas aparentemente inaproveitáveis. Talvez isso se deva mesmo a uma sensibilidade acima da média, não sei. Só sei que me ocupo disso desde pequeno.

É verdade que você já está gravando algumas canções de seu novo disco e escrevendo um novo livro? O que está vindo por aí?

Vitor Ramil - Sim. Já tenho pronto um repertório básico e um conceito para o próximo disco, mas ainda vou compor mais até a hora de entrar no estúdio, o que é normal. E também estou avançando em meu livro novo, cujo título provisório é Satolep, tema que não é nenhuma novidade no meu trabalho... No ano passado tive que dar uma segurada na música para poder parar e escrever. É difícil conciliar. Mas sigo nas duas tarefas, como sugere o Saramago: sem perder tempo, mas sem pressa.

No seu último disco, Tambong, há um poema musicado de Allen Ginsberg, um poeta da geração beat, e outro de Paulo Leminski, um dos autores "malditos" do Brasil. Você tem preferência pelos escritores de vanguarda? Como funciona a assimilação de influências literárias em sua música, considerando que você também é escritor? Existe um choque de influências ou as coisas funcionam de modo um pouco mais organizado?

Vitor Ramil - Minha preferência é por aqueles autores para quem fundo e forma são uma só coisa, não por aqueles que meramente contam histórias ou revelam sentimentos, nem pelo seu oposto, aqueles cujo apuro formal é o resultado estéril de um atletismo intelectual. Mas me atraem sempre os autores que forçam os limites do estabelecido pela força da sua criatividade. Meu texto começou fortemente influenciado pelo meu trabalho com letras de música, em que a concisão é palavra chave. Hoje minha música vem ganhando a unidade que já existe no meu texto.

Ainda em Tambong, você trabalhou com artistas de vários lugares do Brasil, como Egberto Gismonti, Lenine e Chico César. Este último até fez algumas apresentações com você. Como foi essa experiência?

Vitor Ramil - O Egberto é o artista número um da minha formação. Quando escutei Água e Vinho pela primeira vez fiquei siderado, sonhando em compor com aquela qualidade. Lenine e Chico são caras da minha geração, amigos e grandes compositores. Lenine e eu temos uma trajetória parecida, pois começamos na mesma época, embora ele seja um pouco mais velho que eu, e levamos nossas carreiras de forma lenta, sem permitir que a ansiedade do sucesso nos inoculasse seu vírus. Claro, hoje ele é muito conhecido e eu não, mas nossa relação com o que produzimos permanece a mesma. O Chico se tornou um amigo muito presente. Temos tocado juntos por aí. Considero-o um dos melhores compositores brasileiros. Como não dizer que tê-los no Tambong foi muito, muito bom?

Como você vê a cena musical gaúcha? É benéfico esse "bairrismo" existente em nosso estado, com um grande número de bandas e artistas que só fazem sucesso por aqui?

Vitor Ramil - Acho que o sucesso local das bandas não é uma questão de bairrismo, mas de mercado. Existe um mercado grande de festas para as bandas, por isso elas se proliferam. Se fosse um mercado para compositores de valsas, eles surgiriam às centenas. Para esses grupos, por um lado é bom porque é trabalho, mas por outro é ruim, pois favorece a acomodação. Com a perspectiva de ganhar grana por aqui, o sucesso em outros lugares, ou nacional, e o crescimento artístico que isso propicia ficam de lado.

Todo músico quer ser ouvido. Como é para você o conflito entre "fazer música honesta" e "fazer música para o mercado"? Existe essa preocupação no seu trabalho?

Vitor Ramil - Bem, acho que ambas podem ser honestas. Há quem, honestamente, queira fazer música só para ganhar grana. Por outro lado, também existe o mercado de quem não gosta do mercado. Hoje sou independente. Para mim isso significa total liberdade de escolher meu repertório e gravar as coisas que gosto. Em gravadoras isso já não é fácil, é quase impossível. Só posso me dar ao luxo de gravar o que quero porque sei que existe um mercado, por insignificante que seja, para isso. A questão é o artista se satisfazer em criar para os "happy few". Eu me satisfaço.

A inquietude vanguardista que há dentro de você é a alma de sua criação? A maturidade faz com que a cada dia você se conheça melhor como criador?

Vitor Ramil - Não sei qual é a alma da minha criação. Sei que o amadurecimento é um dos momentos mais deliciosos dessa história toda. É um período em se ganha uma calma de movimentos e uma visão privilegiada da própria ação, estando ainda intacta a intuição que leva ao ato criativo.

Qual sua opinião sobre a popularidade dos programas de troca de arquivos na internet, que tem a maior parte do público procurando por música? De que forma esse fenômeno atinge o artista, além do lado financeiro? Você vê alguma solução para o problema da pirataria de discos no Brasil?

Vitor Ramil - A pirataria na China hoje é de 95%. Isso mudou completamente a carreira dos artistas de lá e o trabalho das gravadoras, que passaram a ser uma espécie de agenciadoras de talentos. Caminhamos para lá. Como sou um artista de vendagens modestas e para um público diferenciado, não tenho sentido os efeitos da pirataria. Mas os artistas populares estão sentindo demais. Acho que uma estratégia boa, no meu caso, pode ser agregar valor ao produto, como um bom trabalho gráfico e qualidade de som excelente, e também um valor afetivo, considerando que certo tipo de público não se contenta com algo que não seja o original. Acho que a internet é sensacional para a difusão de música. Certamente ela vai definir os futuros suportes para a música gravada. Mas isso ainda não se pode prever com muita clareza.

Desde os tempos das vacas magras, você já era simpatizante do Partido dos Trabalhadores. Como você vê o momento político atual do Brasil?

Vitor Ramil - É um momento pelo qual sonhamos durante muito tempo. Me refiro ao fato do Lula chegar à presidência. Ao mesmo tempo, no mundo de hoje já não há muito espaço para as utopias. O Brasil pode oferecer ao mundo uma saída, mas o mundo pode não estar interessado nela.

Você já morou em algumas capitais, como Rio e Porto Alegre. Quais os motivos que levaram você a decidir morar aqui em sua cidade natal?

Vitor Ramil - Quando me mudei, além das fantasias com Satolep e essa casa, fatores familiares foram determinantes. Tínhamos filhos pequenos e meu ritmo no Rio, com muitas viagens, estava prejudicando o da minha mulher. Mas depois de estar aqui, percebi que haviam motivações profundas, que eu não era capaz de perceber. Na verdade, só percebi no momento em que pensei em ir para São Paulo e entrei em crise. Voltar para essa casa me fez criar como nunca. Comecei a ser artista depois desse retorno. Sempre me senti sufocado nos lugares em que vivi longe daqui. Essa casa é meu ar. É cansativo morar longe de tudo, mas tem suas compensações. Pra minha família também foi ótimo. Satolep é onde moro, esteja onde estiver; mas Pelotas é o lugar concreto mais próximo de lá.

Certa vez você declarou que "o Rio Grande do Sul não estava à margem do centro do Brasil, mas sim no centro de uma outra história". Comente um pouco sobre esta sua visão geocultural.

Vitor Ramil - Todas as regiões fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo se sentem à margem, porque estamos condicionados a aceitar que só o que acontece no centro é que é relevante para todo o país. Especialmente para nós, do Rio Grande, sempre foi difícil aceitar isso. Por outro lado, continua sendo difícil percebermos que nossa história de fronteira no extremo sul, de espaço de transição entre o Prata e o país tropical abençoado por Deus é única. Estamos em um centro de três culturas importantes e temos uma história muito particular. Como não fazer disso o motor da nossa criação em vez de ficarmos nos lamentando que o centro não dá espaço para os rio-grandenses?

Para terminar, uma clássica pergunta, mas que todo mundo que gosta de música, gosta de saber: o que você anda escutando ultimamente?

Vitor Ramil - O som do formão raspando numa janela quase centenária que estou recuperando às pressas, nos momentos em que não estou escrevendo. Estou preparando em ensaio sobre a estética do frio para palestras que vou dar sobre o assunto em Genebra e Paris, onde meu livro, Pequod, será lançado este ano.

Escrita a quatro mãos com o jornalista Guilherme Curi e publicada originalmente na revista Projeto Casulo, em maio/2003
Share
Tweet
Pin
Share
No comments
Foto: Leonardo Tissot


This article is available in Portuguese only.

SANTOS, SP - Campeão Paulista e da Copa do Brasil em 2010 como treinador do Santos, o ex-volante Dorival Silvestre Júnior é um trabalhador. Mesmo liderando uma das gerações recentes mais talentosas do Brasil – com craques como Neymar, Paulo Henrique Ganso, André e Robinho – o técnico acredita que o verdadeiro diferencial para o sucesso de seu clube é o comprometimento e o foco em atingir resultados. Confira, nesta entrevista exclusiva para a Revista Ligado da AES Brasil, um pouco do que pensa o treinador nascido em Araraquara (SP), e que é uma das maiores revelações brasileiras dos últimos anos.



A sua experiência prática é no campo, mas você acredita que gerir uma equipe de futebol pode ser similar à gestão empresarial? Quais são as principais semelhanças que você observa nos dois segmentos?

As semelhanças são reais. Eu costumo dizer que o treinador de futebol é um gerenciador de problemas. No dia a dia, convivemos com um grupo, e os problemas são muitos. A maioria é solucionável no curto prazo. Outros, que vêm de fora para dentro, são um pouco mais difíceis, até porque são problemas muito expostos, todo mundo fica sabendo. É fundamental trabalhar como uma equipe e prezar, acima de tudo, pela disciplina.

Um colaborador de uma empresa (ou jogador em um clube) pode ser mais talentoso do que outro. Você está liderando a geração mais festejada do futebol brasileiro em muitos anos. É necessário algum trabalho especial para que esses craques não entrem em campo de “salto alto”?

Não é preciso um trabalho especial, mas sim estar atento a todos os detalhes, sempre ligado ao que está acontecendo. O futebol não é simplesmente ir a campo e treinar. O esporte envolve minúcias, o dia a dia é muito trabalhoso e delicado. As pessoas, muitas vezes, não se dão conta de tudo o que acontece dentro de uma equipe de futebol. Os jogadores devem estar sempre muito focados, independentemente do talento e fama.

Qual a importância do elogio e da cobrança? O excesso de um ou de outro pode atrapalhar?

O elogio moderado, feito aos poucos, é bom. Já a crítica, é preciso saber como fazer. Muitos profissionais do futebol vêm de classes menos favorecidas, os atletas não têm uma base, e mesmo os que têm sentem muito, porque estão expostos ao olhar do público e da mídia. As opiniões vão do céu ao inferno em questão de horas, se modificam completamente. O jogador que é muito elogiado acaba entrando em uma “zona de conforto”, o que pode prejudicar. Aquele que é muito criticado precisa de uma mão, de alguém que o mantenha motivado.

 Também é papel do treinador dar essa base para os jogadores?

Sem dúvida, é preciso conhecer o máximo possível de detalhes do grupo, para sentir o que eles estão sentindo e ter condições de ajudar o atleta a alcançar seu potencial máximo, mesmo em um momento negativo. O treinador precisa administrar todas essas situações pelo bem do time.

De estagiário a diretor de empresa, um longo caminho precisa ser percorrido. De jogador a treinador também. O que você aprendeu na época de atleta que lhe é útil na sua carreira atual?

Eu sempre procurei observar muito os profissionais com quem trabalhei. Busquei extrair o que eles tinham de bom e analisar os aspectos em que eu gostaria que o treinador fosse melhor. Tentei me preparar o máximo possível para exercer essa profissão. Os meus últimos cinco ou seis anos como jogador me ajudaram muito. Minha passagem como atleta foi, muitas vezes, como capitão de equipe, o que me deu esse senso de liderança em campo. O futebol demanda um estudo contínuo, você vai melhorando e crescendo a cada momento, mas depende muito do poder de observação.

Entrevista publicada em 2010, na Revista Ligado, da AES Brasil.
Share
Tweet
Pin
Share
No comments
Foto: René Cabrales

This article is available in Portuguese only.

PORTO ALEGRE, RS – Ivone Pacheco nasceu em Porto Alegre (RS). Após a infância e a adolescência vividas ao redor do Hotel Metrópole, de propriedade do pai, no Centro da capital gaúcha, dedicou a vida adulta ao casamento, aos filhos e à carreira como professora na rede estadual do Rio Grande do Sul.

Ou quase isso.

No começo dos anos 80, Ivone decidiu, como em uma canção de Charles Mingus, fazer uma parada brusca, para voltar com tudo logo a seguir. Em 1982, iniciou um lendário clube de jazz no porão de sua casa, no bairro Petrópolis – o Take Five –, que mudou para sempre sua trajetória.

Nesta entrevista, concedida há 10 anos para a revista Panvel Sempre Bem, em uma pauta que deveria focar em saúde e bem-estar para pessoas acima de 60 anos, Ivone abriu seu porão e revelou histórias e impressões sobre o mundo que foram pouco aproveitadas na matéria original, mas que não poderiam ficar restritas ao arquivo pessoal de um jornalista.

Pela primeira vez, a versão completa desta conversa é publicada, extraída do arquivo de áudio original em que foi gravada, em uma manhã de dezembro de 2008, no famoso porão onde ocorrem, até hoje, as sessões de jazz do Take Five.

No bate-papo, Ivone revelou as ideias de uma mulher que vive à frente do seu tempo, mas que também acredita em instituições tradicionais. “Para mim, um homem e uma mulher morarem juntos, é casamento. E casamento tem que ser na igreja e no cartório. Quer dizer, eu sou careta, mas pra música eu sou louca. É só ali que eu me liberto. Eu continuo sendo aquela menina educada em colégio de freira”, confidenciou.

Mais do que uma mãe, uma esposa ou uma professora, no entanto, Ivone sempre se viu como artista. “O artista, por ser muito sentimental, ele sofre mais. Eu vejo a vida por outro prisma. Eu vejo pelo lado espiritual”.

Boa leitura.

***

LT - A senhora desde criança teve contato com a música. Conte um pouco sobre como foi esse começo.

Ivone Pacheco – Com quatro anos, eu tocava piano sozinha. Eu me criei em um hotel, do qual meu pai era dono. E, com oito anos, eu comecei a ter aula particular. Naquele tempo, a professora ia em casa. No começo, eu brincava, tentava tirar músicas sozinha. E aí, com oito anos, a professora veio me dar aulas. Uma senhora um dia me ouviu tocando e falou para minha mãe, “olha, essa menina tem que aprender música, ela tem ouvido”. E aí eu comecei com aulas particulares.

Isso foi, foi, foi... Eu cheguei até o oitavo ano. Estudei música clássica, erudita. Mas eu não gostava daquilo. Eu assistia filmes americanos e me entusiasmei pelo jazz desde criança. Com 12 anos, eu já queria fazer harmonia jazzística, e a professora me batia nas mãos, porque ela não admitia aquilo. Eu tinha que tocar Chopin, Beethoven, Mozart, Bach. Estudei até o oitavo ano. Com a morte da minha mãe, eu interrompi os estudos.

Depois, retomei um pouco, [nota do editor: nos anos 70, já casada e com filhos, Ivone estudou no Liceu Musical Palestrina, antiga escola de música de Porto Alegre, que encerrou as atividades no ano 2000] mas toda moça tinha que casar. O homem tinha que fazer o serviço militar e a mulher tinha que casar e ter filhos. E o meu pai, de origem italiana, começou a perguntar... Ele queria se livrar das filhas, eu acho, né? Para poder se casar também. Só que ele não casou.

A minha irmã também tocava violino e cantava. Isso estava na raiz da família – na Itália já tínhamos uma cantora na família. E a minha mãe também cantava em casa. Trechos de óperas, cançonetas italianas. Mas aí, eu interrompi e começou aquela ideia, “tem que casar, tem que casar, não adianta tocar piano”. O meu pai não queria que a gente fosse artista. Então, eu casei, já com 27 anos. Naquele tempo se costumava casar virgem, né? Então, tu vês o tempo que a mulher perdia com namoro, noivado e casamento. Bom, aí, em seguida vieram os filhos. Eu tenho três filhos, duas moças e um rapaz.

LT - O clube de jazz já tem 26 anos [nota do editor: atualmente o clube já tem 36 anos]. Como ele surgiu na sua vida?

Ivone Pacheco – É, o clube já vai fazer 27 anos. Eu fui descoberta por um jovem chamado Marcos Ungaretti. Ele é compositor e, na época, estava na colônia de férias da UFRGS, tocando num piano velho. Eu sentei depois e fui tocar um pouco. Aí ele disse assim: “a senhora toca jazz”. Eu nem sabia que eu tocava jazz.

Ele achou meu estilo interessante, fez amizade comigo, me levou para conhecer o estúdio da banda dele, o Grupo Raiar. Me levou para conhecer a família dele. E me convidou para ir pro Teatro Renascença, onde ele deu um show com a banda dele. Aí, ele vinha aqui tocar comigo, mas o piano tava na sala tradicional, lá de cima. Aí deu uma “descambada” na família quando a coroa inventou de baixar o piano e fazer o clube de jazz aqui embaixo.

Eu tinha uns quarenta e poucos anos, quase 50 – é a hora em que a mulher dá uma virada, sabe? Eu já tava cheia daquilo de marido, filhos, prisão. O casamento pra mim foi uma prisão. E eu era professora no Estado também.

A minha irmã falou pra mim, “tu vais sair de casa”. Como assim, sair de casa? “Tu vais trabalhar fora e estudar fora, já que tens o piano tu vais tirar Educação Musical, eu pago a faculdade pra ti, e tu cai fora de casa, porque tu tá desatualizada, só envolvida com comida, casa e criança”.

Aprendi a tocar acordeão, que o gaúcho chama de gaita. No nosso sangue italiano tem música. A minha irmã estudou violino, cantava sem ter aula com professora particular. Eu, com o tempo, comecei a cantar música francesa. O pessoal gostou muito. Eu faço música francesa e canto, é um outro trabalho. Mas tem um carro-chefe que é o piano, e é o jazz.

Afinal, eu disse, vou abrir um clube de jazz. “Onde?”, perguntou o Marcos. “No meu porão”, eu respondi. Aí veio ele e outro rapaz, o Sérgio Jaeger, que também me deu muita força. Aí começaram a me levar pra noite, pra conhecer bares onde tocavam. Se tinha piano, eu dava canja. Aí eu comecei a ir pra noite. E os filhos, naquela fase da adolescência, apavorados. “A mãe enlouqueceu, os magros do Bom Fim tomaram conta da nossa casa!”. Começou assim. Isso foi em mil novecentos e oitenta e poucos [nota do editor: o Take Five começou em 1982].

Uma vez tinha 300 pessoas aqui. Toda a juventude. Aí os coroas tomaram conta, porque os jovens chamavam os pais e os tios que tinham abandonado a música, e eles voltaram a tocar.

LT – E a senhora ganhava algum dinheiro com isso?

Ivone Pacheco – O clube sempre teve entrada franca. Nunca cobrei nada de ninguém. Mas ele também sempre foi meio secreto, porque senão vem muita gente. Uma vez nós fechamos por três meses, porque tinha 200 pessoas, tinha moto, tinha carro, gente que vinha a pé... As pessoas começavam a chamar as outras. Os coroas foram tomando conta. “A tia Ivone, ela mora num porão”, a gurizada dizia. Eles achavam que eu morava no porão, que eu era uma velha meio louca que vivia num porão. Aí, depois, queriam que eu fumasse maconha, e eu respondia, “não, não quero saber dessa coisa.”

LT – Como era essa turma na época que começou o clube de jazz?

Ivone Pacheco – Eles usavam aquelas calças jeans boca-de-sino, largas. E as gurias com aquelas batas indianas. Aí eu passei a me vestir como hippie. Eu não entrei na maconha, mas eu adorei aquela vestimenta hippie, aquela coisa liberta. Uma coisa estranha, bem indiana. Porto Alegre estava forrado disso. O movimento era no Bom Fim, mas eles subiram para cá e vinham tocar. Tocavam bateria.

Na primeira sessão tinham 25, depois já aumentou. Foi aumentando. E eu fazia toda semana. Aí eu comecei a cansar, e a vizinhança começou a reclamar, né? Porque era três, quatro da manhã, e eles queriam continuar tocando. Era sempre aos sábados. Agora eu faço três sessões do clube só por ano, porque eu cansei.

LT – A senhora também tocou muito fora do Brasil. Como foram essas experiências?

Ivone Pacheco – Mais para o fim dos anos 80, eu toquei nas ruas em Nova Orleans, em Nova York e em Paris. Fui fazer pesquisa de jazz. Fui primeiro com a minha irmã, depois com a minha filha. E em Paris eu ganhava moedas do mundo inteiro.

Toquei muito em Brasília, no interior do Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio. Toquei em Porto Seguro. Lancei um CD só, até tenho que fazer mais. Eu vendi muito CD. A experiência de Nova Orleans foi muito boa, porque eu conversava em espanhol com os músicos de lá. Eu não falo inglês. Falo italiano, francês, espanhol. Eu não gosto muito da língua inglesa.

Lembro também que toquei numa travessia de Nápoles a Capri (Itália) num naviozinho. E comemorei meu aniversário de 76 anos em Atenas (Grécia), então toquei num navio grande em que velejamos na Grécia, agora há pouco.

Mas eu nunca tive um promoter, alguém que pudesse me ajudar a conseguir shows. Eu tinha a secretária eletrônica, que era a minha “empresária”. As pessoas deixavam os recados. Mas agora ela estragou.

Toquei muito em Pelotas, também.

LT – É mesmo? Eu sou de Pelotas.

Ivone Pacheco – Ah, tu és de Pelotas? Eu toquei no Sete de Abril – três vezes por ano me chamavam. E eu ficava no Hotel Manta. E tocava num bar, um bar que estava estourando na cidade, eu acho que tu era muito pequeno, não deve saber...

Também toquei na Argentina, no Chile. Cada viagem que eu fazia, eu dava uma canja e já me contratavam. Só que eu não ficava muito tempo. Toquei muito em happy hours em Brasília, em hotéis e restaurantes, no Feitiço Mineiro. A Cida Moreira que me indicou para o restaurante. Então, eu não posso me queixar.

LT – Conte um pouco mais sobre essa experiência que, como a senhora mesmo fala, foi de “libertação”: de que forma a relação com a música se consolidou na sua vida?

Ivone Pacheco – Toco piano, acordeão, escaleta, teclado e castanhola. A gente, quando é solteira, aprende muita coisa. Depois, a vida se vira para o marido e os filhos. Então, eu abracei a música depois que eles estavam crescidos, e pelo clube de jazz, por causa do Marcos. Aí, eu abracei direto, até hoje, e não renuncio.

Eu precisava abraçar outra coisa na minha vida. E eu acho que a coisa certa é a música. É uma coisa espiritual, é uma arte. Eu acho que a gente sobrevive com a arte, a pintura, a dança, o canto. Tem muita coisa na arte que tu abraça e tu esquece do resto. E eu esqueci de tudo.

Eu vivo pra música, meus amigos são todos músicos. E esse clube aqui foi visitado por muita gente. Agora vou ganhar um teclado Roland de presente. Vão levar para mim para eu tocar nos lugares.

LT - Em termos de qualidade de vida, quais os benefícios que a música trouxe para a senhora?

Ivone Pacheco – Pra mim, a música foi meu orgasmo. O orgasmo espiritual é o melhor de todos. A música é tudo para mim, porque foi interrompida. Ela é o meu amor antigo. E eu busquei. Sem querer, ela chegou na minha mão. Sem querer não, foi por intermédio do Marcos. Ele colocou a música na minha vida novamente. Porque eu casei e abandonei tudo. Eu me dediquei só ao marido e aos filhos. E a minha irmã veio de Brasília e me sacudiu e disse, “olha, vai pra rua, vai pro mundo. Tu tá só entocada dentro dessa casa. Isso não é vida”.

LT - A senhora acredita que uma pessoa acima de 60 anos tem condições de começar a tocar um instrumento, mesmo que nunca tenha tocado?

Ivone Pacheco – Depende da vontade, do talento. Tem que ter ouvido, mas também boa vontade. Acho que não tem idade para a pessoa recomeçar. Mas precisa de tempo. Eu praticava três horas por dia, mas alguém de idade mais avançada que vá começar agora, precisa se dedicar mais. O que não pode é, com 60 anos, cruzar os braços e dizer que está muito velho. Porque ele pode chegar a 90 anos. E vai ficar 30 anos fazendo o quê? É isso que eu digo. Eu achava que ia viver até 50 ou 60, e eu já estou com 76. E eu quero chegar aos 90, no mínimo. E a música vai me levar até lá. Pode ser sem uma perna, deitada, sentada. Tocando, eu vou viver.

A música evita o Alzheimer, tu sabia? Dizem que crochê, palavra-cruzada, computador, dizem que todo velho tem que lidar com isso. Eu estou sempre atualizada, vejo televisão, vejo DVD. Mas eu gosto é de filme antigo. Aí tem que procurar, então não estou vendo muito. Mas estar a par do que está acontecendo no mundo, eu acho que tem tempo. Não existe isso de “estou velho”, o que vale é o espírito. É a cabeça estar funcionando e atual. Eu lido com gente jovem, não com velhos. Eu não posso ir para uma geriatria, porque eu quero viver. Eu quero ser útil. E quem tá me ouvindo, diz que o meu estilo está evoluindo ainda.

LT – Muitas pessoas de mais idade reclamam da solidão. A senhora se sente sozinha?

Ivone Pacheco – Eu adoro a “solitude”. É tu ficar contigo mesmo e gostar de estar só. Tu já sentiu isso?

LT – Já. Eu moro sozinho.

Ivone Pacheco – Tu mora sozinho? E tu gosta de ficar sozinho?

LT - Gosto, mas não o tempo todo.

Ivone Pacheco – Eu acho que eu sempre fui assim, mas não podia, né? Existe o momento para tudo acontecer. E a pessoa tem que estar na busca, pois se ela fica parada, ela não encontra nada. Tem um trecho de um livro que eu li, do Jorge Luis Borges. “Caminante, no hay camino / se hace camino al andar” [nota: na verdade, a poesia é de autoria do espanhol Antonio Machado]. Tu tem que sair da tua ostra, para ver o que está acontecendo lá fora. Sem caminhar, eu não seria o que eu sou hoje. Eu toquei em bares, aí começaram a me chamar. Eu dei canjas. Fui caminhando sempre. Eu dei aula no Estado, aquilo era uma prisão, era uma jaula.

LT - A senhora deu aula até se aposentar?

Ivone Pacheco – Sim, com 60 anos. Eu demorei um pouco mais, pois eu tirava licenças para poder me dedicar à música. E eu ganhava mais com a música do que como professora. Mas a gente já está saindo do assunto da entrevista, né? O que interessa é o clube de jazz, as minhas viagens, onde eu toquei. Tu vai selecionar aí pra colocar lá no jornal, né?

***

É neste ponto que a gravação se encerra. Já havia conseguido o que precisava para a minha pauta, mas por mim, passaria o resto da tarde ouvindo as histórias de Ivone, tentando buscar mais detalhes, conectando os pontos e as informações na linha do tempo que ela trazia, de memória, no improviso, como um bom jazz. Ela, naturalmente, já estava cansada, e terminamos por aí.

Fui convidado para a sessão seguinte do clube, que ocorreu em abril de 2009, e pude ver e sentir um pouquinho do clima vivido por aqueles jovens – se não de corpo, definitivamente de alma – desde os anos 80. Hoje, com 86 anos, Ivone ainda participa de sessões do Take Five eventualmente (hoje organizado por sua filha, Rosa Maria Marin Pacheco), apesar dos problemas de saúde. Como ela mesma diz, segue firme rumo aos 90 anos. “A música vai me levar até lá. Tocando, eu vou viver”.


Entrevista original publicada na Revista Panvel Sempre Bem, em janeiro de 2009. A íntegra está sendo publicada pela primeira vez neste site.
Share
Tweet
Pin
Share
No comments

Foto: Bruno Maestrini

This article is available in Portuguese only.

PELOTAS, RS - Eles vieram. Os cariocas da banda Los Hermanos estiveram em Pelotas para apresentação única no Teatro Guarany, no dia 15 de abril de 2004. Centenas de fãs ávidos para conferir o quarteto no auge de sua forma lotaram o local em mais uma noite mágica, cheia de poesia e de belas melodias. Depois do show, batemos um papo rápido com Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, as duas mentes criativas por trás do som dos Los Hermanos.

Projeto Casulo - Como a banda foi recebida em Pelotas? O que acharam da cidade?

Marcelo Camelo - Eu, na verdade, dormi o dia inteiro. A gente chegou cedo de Porto Alegre, onde tocamos na noite passada, e não tivemos muito tempo pra dormir. Mas fiquei muito surpreso com a beleza do lugar. O teatro também é muito bonito e é bom tocar em lugares que privilegiam o som. Não é muito comum pra gente tocar em lugares com uma acústica boa assim. Nos preocupamos sempre com a qualidade do som e que as pessoas ouçam a música como ela realmente é. Quando tocamos em lugares com acústica ruim é horrível, porque a informação não chega para o público como deveria.

PC - Vocês tinham alguma expectativa em relação ao público pelotense? Se tinham, ela foi alcançada?

Camelo - Eu acho que sim, a gente tem encontrado em todo o país um público que realmente gosta da nossa música. Mas aqui, especificamente, é muito longe da nossa cidade e, por não ser uma capital, geralmente a informação demora um pouco mais pra chegar. A gente fica feliz de saber que temos um público aqui e que a nossa música está chegando.

PC - No ano passado, assistimos a um dos primeiros shows do Ventura, em Porto Alegre. Mesmo com o disco recém lançado, todo mundo cantava todas as músicas e vocês pareceram um tanto surpresos com isso. Essa devoção que os fãs tem em relação à banda assusta?

Camelo - Não, cara, a gente sente muito prazer em tocar as músicas. Às vezes as pessoas acham que ficamos surpresos, mas estamos apenas felizes, alegres de estar tocando e de ver as pessoas cantando junto. Porto Alegre é uma cidade em que a gente tem ido com frequência, pois temos um público forte lá.

PC - Qual a diferença entre os shows do começo da turnê e os de agora, quase um ano depois? Vocês estão mais à vontade?

Rodrigo Amarante - Sim, o lance de ficar à vontade tem a ver com o tempo mesmo, a gente passa a brincar mais, um fica chamando a atenção do outro, a gente se diverte mais.

PC - Os arranjos mudam um pouco também, não?

Amarante - É, têm várias referências, várias músicas têm sutilezas diferentes. Isso é a gente brincando, passando do ponto de conseguir tocar direito as músicas e chegando em outro estágio. E ver essas coisas acontecendo ainda com a reação do público é mais um incentivo pra continuar sempre mudando um pouquinho as músicas.

PC - Vocês estão compondo músicas novas durante as viagens? Durante a passagem de som vocês estavam tocando algumas coisas diferentes.

Amarante - É, estamos sempre compondo. Essa da passagem de som realmente era uma música nova, que ainda está pela metade. É bom ir sempre trabalhando nas músicas novas para que dê tempo de fazer um bom trabalho com os arranjos, quando a gente se isola num sítio, no Rio. Geralmente eu estou sempre atrasado e tenho que fazer tudo em cima da hora, mas até agora estou dentro do prazo.

PC - Sobre os fãs procurarem significados nas letras...

Amarante - Ah, tem mais é que procurar significado! Senão a letra serve pra quê?

PC - Então vocês escrevem as letras com significados próprios mas, ao mesmo tempo, permitem interpretações dos fãs?

Amarante - Não existe um significado próprio, só meu. Eu escrevi, e o que tá escrito é o que existe. Não tem um significado meu. Quer dizer, pode até ter, mas ele também pode mudar. Eu vivo encontrando coisas novas nas músicas que eu mesmo escrevi. Cada um pode interpretar de um jeito. "Do Sétimo Andar", mesmo. Eu já ouvi várias interpretações maluquíssimas em relação a essa música.

PC - Como a do cachorro... [Nota: muitos fãs acreditam que a letra de "Do Sétimo Andar" seja sobre um homem que sente falta de seu cão].

Amarante - É. Por isso que eu acho furada essa história de prova de interpretação. Não tem interpretação errada. Cada um imagina uma coisa. O cara pode falar que essa música é sobre um cachorro e pronto (risos).

PC - Sobre a forma de compor, fica bem claro que existem diferenças entre os dois, Amarante e Marcelo. Uma fã escreveu num fórum sobre a banda na internet que "o Amarante é só pra fazer sexo, o Marcelo é pra casar". O que vocês acham disso?

Amarante - Tá vendo? Cada um pensa o que quer. Inclusive grandes besteiras (risos).

PC - Vocês já têm planos para os próximos meses?

Camelo - Sim, vamos tocar em Portugal no mês de junho. Depois disso, vamos lançar um DVD pra finalizar o trabalho de divulgação do Ventura e começar a trabalhar em um novo álbum, para lançar no ano que vem.

Entrevista originalmente publicada na revista online Projeto Casulo (Abril/2004).
Share
Tweet
Pin
Share
No comments
Newer Posts
Older Posts

Contact

Name

Email *

Message *

News

Archive

  • August 2025 (1)
  • September 2024 (1)
  • April 2023 (1)
  • March 2023 (1)
  • February 2023 (1)
  • November 2022 (2)
  • June 2022 (2)
  • October 2021 (2)
  • August 2021 (1)
  • July 2021 (1)
  • May 2021 (3)
  • January 2021 (1)
  • October 2020 (2)
  • September 2020 (2)
  • July 2020 (1)
  • May 2020 (1)
  • March 2020 (1)
  • January 2020 (3)
  • December 2019 (2)
  • May 2019 (1)
  • April 2019 (1)
  • March 2019 (1)
  • February 2019 (1)
  • November 2018 (1)
  • October 2018 (1)
  • September 2018 (1)
  • August 2018 (5)
  • July 2018 (1)

Created with by BeautyTemplates | Distributed by Blogger